domingo, 27 de maio de 2012

luz fria num olho opaco










me vejo no teu olho, onde
meu olho reflete

o teu rosto, numa pintura branca
do rastro do feixe
da luz que percorre
teu rosto.
e reflete no teu olho,
que às vezes parece-me-te morto,
perdida, olhando o vazio adentro,
perpetuando o limbo no mofo,
insistindo, como todos a
continuar somente
mofando.

por qual razão eu tive
o azar de me encantar com este olho?pois
ele me parece frouxo e em vão!
sem dúvida é pelo brilho
que lhe aparece quando olha
ao meu. será o meu olho
que lhe incita a brilhar,
me puxando, me amortecendo, testando?

o teu rosto ferve - meu peito encostado ao seu
um coração bate único, me confundo - te mordo
não sei se é o meu, correndo, neurótico.

2
esta que se perfila na sobra
que estala o som na sombra
ou que desliza macia na tarde
não é a mesma que domina a mente
do corpo desta musa.
quem é então, se não um reflexo
um vento, um pó?
um sonho, meu.
esta a quem dedico as letras
não é a mesma que lerá as mesmas
é outra, minha, que beijei em sonho
numa noite perdida.
de que me adiante correr atrás desta
se ela está em mim?
está contida onde?
atrás de uma cortina vermelha e grossa,
que se abre atrás de um arbusto
num bosque obscuro?
é um demônio do meu sonho
um demônio macio...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

existe
um abismo
entre
a essência
e
a persona

ora
abismo
ora
fino ar
com uma fibra
de papel
se desfazendo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

dentro do poço

Dentro do Poço
há água.

Se jogas veneno.
matas.

Se jogas poeira,
faz adoecer.

Se jogas certas ervas,
curas.

Se jogas certas ervas,
envenenas.



Se nada jogas,
deixas a água como está.

quarta-feira, 21 de março de 2012

confissão

eu juro que não fui eu
o ladrão que causou essa barbárie
eu juro que eu fui apenas um fio de cabelo
no sabão
coisa pouca
foi um passo em falso
na direção
do erro. mas eu já me vi
o espelho volta a me dizer
num tempo só

sou
o apse do belo
o fundo da galocha
e o mistério pungente;

eu juro: se me pergunta
eu posso jurar
não fui eu que ergui esse castelo
eu apenas cheguei na torre
sem nem me ver subindo
eu juro! chorando!
mas eu vi a altura e decidi viver no chão mesmo
viajando vez ou outra
num barco, numa jangada
pode ser.

bom, eu posso beijar a cruz se quiser
mas eu não preciso dar satisfação a ninguém;
eu chorei quando a Teca morreu
mas chorei de dor no peito
chorei quase que por leve vaidade
mesclada ao afeto que me segurava
chorei porque não tinha jeito
tinha que chorar. mas estava fora
do meu alcance
era num lugar sem portas.
era outro castelo, de ouro
um castelo haxixim
sei lá.
II - O Meu Olhar
alberto caeiro 

     O meu olhar é nítido como um girassol.
     Tenho o costume de andar pelas estradas
     Olhando para a direita e para a esquerda,
     E de, vez em quando olhando para trás...
     E o que vejo a cada momento
     É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
     E eu sei dar por isso muito bem...
     Sei ter o pasmo essencial
     Que tem uma criança se, ao nascer,
     Reparasse que nascera deveras...
     Sinto-me nascido a cada momento
     Para a eterna novidade do Mundo...     Creio no mundo como num malmequer,
     Porque o vejo.  Mas não penso nele
     Porque pensar é não compreender ...
     O Mundo não se fez para pensarmos nele
     (Pensar é estar doente dos olhos)                  
     Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
     Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
     Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
     Mas porque a amo, e amo-a por isso,
     Porque quem ama nunca sabe o que ama
     Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
     Amar é a eterna inocência,
     E a única inocência não pensar..

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2

o que me toca te toca
batata
e vice-versa
1
sorriso frouxo
entre o olhar, pedaço do Tejo
como um sinal de lágrima
mais um instante curto e
beijo

2
um dedo entre-laçado
na pele macia
carne-viva.
3
a lembrança de um sonho morto;
4
o suave, lento
delicioso, acordar.
dentro de outro sonho
5
poema-anotação
poema-carne
poema-ausência
sempre-poema